Angústia e Superego em Melanie Klein, Uma Tentativa de Articular a Teoria Através de Um Caso Clínico.

O meu percurso em clínica vem desde 1979, quando comecei a trabalhar com transtornos motores e dificuldades de aprendizagem. O nosso terror pedagógico em escolas e mesmo em consultórios, digo nosso porque era a queixa da maioria dos profissionais desta área, era lidar com crianças hiperativas, o que fazer com elas, como proceder em sala de aula e em clínica com sujeitos que não paravam nem para nos ouvir e nos exauriam, sugando toda a nossa energia.

 Já nesta época tinha um relacionamento amplo com psicólogos, psicanalistas e psiquiatras e ouvia deles, quando tal assunto era inserido na conversa: “Hiperatividade é excesso de angústia, segundo Melanie Klein”. O próprio J. J. de Ajuriaguerra, no seu livro, “Manual de Psiquiatria Infantil”, na descrição da Síndrome Hipercinética (páginas: 238 a 245) apresenta duas formas de instabilidade extremas: com distúrbios motores prevalentes e outra que ele chama de forma caracterial com retardo afetivo e motricidade expressional.

Diante disto ficava me perguntando de onde vinha tanta angústia? Por que alguns a apresentavam de maneira tão exacerbada e outros não? E o que fazer com quem a demonstrava agressivamente? Lembro-me que ficava tentando pesquisar em mim, nas lembranças infantis, se havia passado por tal processo. A única angústia que me vinha era a vontade de urinar diante de situações stressantes, por exemplo, diante de muita lição de casa, antes de iniciar necessitava ir ao banheiro para me acalmar e, então, dar conta do recado.

            No início de maio de 2003, recebi no consultório, um menino de cinco anos de idade, encaminhado pela escola, cujas queixas principais eram: muita ansiedade, insegurança e dificuldade de aprendizagem. Os pais relataram que desde bebê, Victor (nome fictício) era agitado, mamava de meia em meia hora, depois foi espaçando para uma hora de intervalo e por fim, duas horas. Aos dois anos o pai anotou 120 atividades diferentes que a criança iniciava e largava e em seguida a este ciclo, tornava a reiniciar a partir da primeira atividade. Quando foi para a escola, aos quatro anos, começou a pedir para a mãe que não trocasse de roupa até ele retornar, dizendo: “Mamãe você está muito bonita com esta roupa, fique com ela até eu voltar da escola, está bem?” Também contaram que ele sempre foi mais apegado à mãe, brincando mais com ela e não aceitando as regras das brincadeiras que o pai propunha, desistindo das mesmas. Costumava obedecer mais às solicitações de adultos estranhos, do que aos pais. A mãe não trabalhava e o pai só trabalhava meio período, gerando uma desconfiança grande no menino do que podia acontecer na sua ausência. Quando os pais saíram da entrevista, fiquei pensando nos textos da Melanie Klein, que havíamos acabado de ler com a professora Suzana Viana, sobre o Complexo de Édipo, e o quanto a falta de acolhimento das angústias desta criança estavam levando-a a paralisar os seus impulsos epistemofílicos.

            Vejamos, os fatos estavam começando a se configurar, as experiências com crianças hipercinéticas, e o que eu ouvia a respeito delas dos profissionais da área emocional; a minha própria angústia diante da pressão escolar (sadismo uretral); o caso do Victor e sua angústia inicial não acolhida pelos pais; o que estávamos aprendendo sobre o Complexo de Édipo numa abordagem Kleiniana e agora, neste momento, o estudo com a professora Maria Luiza S. Persicano, sobre as angústias iniciais e o superego arcaico, junto com o caso de Leon descrito por Edna O’Schaughnessy. Ficou mais fácil adicionar e poder entender com mais clareza, obtendo respostas às minhas indagações iniciais.

            Antes do nascimento, segundo Klein, o bebê encontra-se com as pulsões de vida e morte fundidas. Depois do nascimento há uma defusão (separação da pulsão de vida e morte). A pulsão de morte passa a circular livremente, havendo uma ameaça de angústia de aniquilamento, o medo do desamparo, sendo esta ameaça a raiz da angústia. Já existe ego desde o início (não ainda integrado, é claro) e, ele como defesa usa a libido narcísica para defletir a pulsão de morte através do sadismo oral, fantasias contra o “seio mau”. Em conseqüência desse ataque, o objeto torna-se persecutório; para dar conta desta perseguição o ego faz um movimento contrário, ele tenta incorporar o objeto. Portanto, o ego inicial é capaz dessas duas defesas: expelir e incorporar, em fantasia. Não há instância ainda, mas existe o superego cheio de “ns” objetos persecutórios. A pulsão de morte faz com que a libido narcísica se ponha a trabalhar e ao fazer isto, acontecem os objetos persecutórios.

            M. Klein fala da importância fundamental das fantasias e dos impulsos sádicos, vindos de todas as fontes que confluem e atingem seu auge maior no início do desenvolvimento. Os processos iniciais de projeção e introjeção conduzem ao estabelecimento, dentro do ego, de objetos “bons”, bem como objetos “assustadores” e persecutórios. Essas figuras são concebidas à luz das fantasias e impulsos agressivos do próprio bebê, ele projeta sua agressividade nas figuras internas que fazem parte de seu superego arcaico. Á angústia proveniente dessas fontes acrescenta-se a culpa derivada dos impulsos agressivos do bebê contra seu primeiro objeto amado, tanto interno como externalizado. As primeiras defesas do ego se dirigem contra a angústia suscitada pelas fantasias e impulsos agressivos. O bebê está na posição esquizoparonóide que vai até os três meses aproximadamente (Klein, 1946). Nesta posição só existe ataque e defesa, não há exclusão, há o narcisismo. Conforme Klein vai recuando na teoria, o superego não só antecede o Édipo, mas também é concomitante; o Édipo aparece após o terceiro mês e continua até o Édipo clássico. O superego continua a evoluir e torna-se herdeiro do Édipo clássico; evoluindo conforme o tipo de angústia, o tipo de estrutura do ego, tipo de defesa e funcionamento específicos.

Leon, um menino de 11 anos, tinha como queixa principal pânico frente a qualquer experiência nova. Uma mudança para a escola secundária estava preste a acontecer e seus pais pensavam que ele nunca conseguiria realizá-la. Leon era o primeiro filho do casal, e quando estava com quatro meses sua mãe engravida de outro menino. Foi com dificuldade que a mãe conseguiu falar sobre a infância de Leon, disse ter sido terrível. Ele chorava horas a fio; ela não conseguia agüentar aquilo e nem alimentá-lo. “Não era o que eu esperava”, ela repetia.  Neste caso, a criança com quatro meses de idade, estava saindo da Posição Esquizoparanóide, onde somente há ataque e defesa, não há exclusão, ele projetava a sua agressividade nos objetos “maus” e tentava incorporar os objetos “bons” para se proteger da culpa de ter agredido e dos objetos persecutórios; porém a introjeção de objetos “bons” nessas circunstâncias, acabou sendo prejudicada, pois Leon não era o que ela esperava. Quando percebe que sua mãe se volta para o outro filho, ele projeta no seio todo o seu ódio e ele, o seio, é incapaz de contê-lo, pelo contrário não agüenta o seu choro e nem é capaz de alimentá-lo, provavelmente ocorreu o desmame, acontecendo uma frustração, que seu ego ainda estava imaturo para agüentar, a confirmação da exclusão muito precoce (se percebo três, estou excluído), criando uma fantasia terrorífica da mãe e ficando sem o acolhimento desta sua fantasia.

Nos primeiros estágios do Complexo de Édipo, a Posição Depressiva, apresenta-se como um quadro obscuro porque:

  1. O ego da criança é imaturo, não foi submetido à ordem da linguagem, do símbolo;
  2. O ego está sob a influência total das fantasias inconscientes, precisa projetar para dentro do outro para metabolizar;
  3. A vida pulsional acha-se na sua fase polimorfa (pré-genital);
  4. As primeiras etapas se caracterizam pelas flutuações rápidas entre objetos e finalidades, com as flutuações correspondentes (entre pênis e o seio, flutuando nas defesas).

            O bebê abandona o seio, porém ele se torna persecutório; indo procurar o pênis-mamilo, surgindo a primeira triangulação (seio – bebê – pênis-mamilo). Como defesa incorpora o objeto na categoria de objeto superegóico sádico. A pulsão libidinal procura satisfação e fica alternando entre seio e pênis-mamilo. Quando o sadismo é elevado no período anterior e no período concomitante à entrada do Complexo de Édipo, cria-se uma fantasia de defesa contra o Édipo, uma fragmentação dos objetos maus como maneira de se safar da persecutoriedade, dividindo em pedacinhos, uma defusão de impulsos, montando uma estrutura para se defender da exclusão e expelir a angústia. Foi o que aconteceu com Leon, demonstrado isto na sua primeira sessão, segundo as observações de sua psicanalista: “Ele podia transformar-se e parecer com alguma versão do seu pai, ou transformar-se e parecer com a mãe; ele também se tornava um bebezinho doente, e às vezes se parecia estranhamente maior”.  Se a criança for coisa, não tem Édipo, há uma cisão sexual, identidade cindida, numa tentativa de dividir o casal combinado porque não pode agüentar a angústia da exclusão, não podendo integrar. Assim ora se parecia com seu pai com quem estava mais ligado no momento, ora com sua mãe e, os personificava (flutuação das defesas).

            Como o ego de Leon ainda estava sob a influência total das fantasias inconscientes, ele tentava projetar para dentro do objeto estas suas fantasias de maneira que fossem metabolizadas; porém o objeto não estava mais voltado para as necessidades do bebê e sim para outro que estava a caminho, não podendo acolher e metabolizar estas fantasias; como defesa ele faz uma cisão dos objetos persecutórios, dividindo-os em pequenos pedaços que são projetados no chão da sala da analista.

 Como na ópera de Ravel, descrita por M. Klein, no capítulo 11, “Situações de Ansiedade Infantil Refletidas em uma Obra de Arte e no Impulso Criativo” (1929), do livro “Amor, Culpa e Reparação” (pág.241 a 248). Um menino de seis anos, diante da sua lição de casa (princípio de realidade), diz que não quer realizá-la, porque preferiria brincar no parque (princípio do prazer), ou colocar a sua mãe de castigo no canto do quarto. A mãe pergunta se ele fez o dever de casa e ele lhe mostra a língua. Então ela lhe diz: “Você vai comer pão seco e tomar chá sem açúcar!” Num acesso de raiva, a criança pula, bate na porta, derruba o bule e a xícara, tenta espetar o esquilo com a caneta, pula da janela e agarra o gato, grita e sacode as tenazes da lareira, atira a chaleira para o meio do quarto, rasga o papel de parede com as tenazes, abre a caixa do relógio e arranca o pêndulo, derrama tinta na mesa, cadernos e livros voam pelo ar. Diante de tantos maus tratos os objetos se rebelam e o atacam; para escapar ele se refugia no parque, mas os animais do parque entram numa disputa para ver quem morderá o menino. Um esquilo é mordido e cai gritando a seu lado. Instintivamente ele socorre o bichinho enrolando o seu cachecol em volta da ferida do animal. O menino murmura: “Mamãe!”… e os animais recuam.  Estes ataques do menino contra os objetos e animais, representam as armas do sadismo primário da criança, que usa dentes, as unhas, os músculos, etc. Só que esta criança teve a contenção da mãe e pôde se humanizar, reparando a sua destruição quando cuida do esquilo e chama por socorro pela mãe. Já Leon não teve a contenção da sua angústia e continua a esfacelar os objetos persecutórios, porque não pode integrar, fazer a reparação de objetos bons que foram precariamente introjetados, ele utiliza o recurso de separar os seus pais, colocando uma almofada de cada lado e sentando no meio das duas, numa tentativa de controlar o ataque do casal combinado e observa detalhadamente a sua analista, transferindo para ela o mesmo controle que fazia na relação com os pais. Fica claro que mudanças para esta criança era muito difícil, pois mudança implica em perda de controle, em lidar com o desconhecido, em lidar com perdas, em excluir coisas antigas para deixar entrar o novo.

            M.Klein, no mesmo capítulo do livro citado acima (pág. 243), diz: “… a fase em que o sadismo atinge seu auge, em todos os campos de onde é derivado, precede o estágio anal mais arcaico e adquire um significado especial pelo fato de ser o estágio de desenvolvimento em que as tendências edipianas se manifestam pela primeira vez. Isso equivale a dizer que o conflito edipiano se inicia sob o total domínio do sadismo. Minha suposição de que a formação do superego segue de perto o início das tendências edipianas –e que, portanto, o ego fica sob a influência do superego já nesse período inicial – explica, creio, porque essa influência é tão poderosa. Quando os objetos são introjetados, o ataque feito contra eles com todas as armas do sadismo provoca no sujeito o medo de sofrer um ataque semelhante dos objetos externos e internalizados…” (mais tarde ela dirá que o superego antecede ao Édipo, como já foi dito acima). Assim, Leon estando no auge do seu sadismo quando foi excluído pelo objeto, desenvolveu um superego muito rígido para se defender dos ataques que infligia contra os pais, que podiam se voltar contra ele e, via o genital do pai desenhado na porta da sala da analista, numa fantasia alucinatória, como um objeto cindido, persecutório, mas que ele podia controlar se permanecesse quieto e pudesse desviar o olhar da porta. Como ele poderia enfrentar o medo do desconhecido, se também não lhe foi permitido desvendar os mistérios da relação com um objeto “bom” que possa fantasiar como seu e transferir para um terceiro a sua raiva? Ele parou de projetar, dificuldade mais arcaica, ficando preso numa perseguição máxima, não havendo objetos “bons” para introjetar, somente “maus”.

            “O seu Complexo de Édipo não era do tipo em que o desejo sexual pela mãe e a rivalidade sexual com o pai são predominantes. Leon não começou com um par parental, mas com um três ameaçador – a mãe grávida com um novo bebê e um pai. Não houve rivalidade; ao invés disso, tal como ele mostrou nas sessões com as cartas de baralho, houve rendição. Leon não competiu nem com o pai nem com o irmão – ele se retirou. O início da situação edipiana foi tão intolerável para ele que ele expulsou a sua própria sexualidade e a dos pais”.(livro: “O Complexo de Édipo Hoje” – capítulo 4 – Edna O’Schaughnessy – pág 114).

            Tentando correlacionar o que Klein fala acima e a observação do paciente realizada por Edna O’Schaughnessy sobre como ele lidou com o seu Complexo de Édipo, vemos que o ego de Leon fica sob a influência de um superego arcaico e a saída para tentar distanciar a sua angústia persecutória é a retirada de sua própria sexualidade e a sexualidade de seus pais. A consciência de um par edipiano é forçada sobre ele, usando de defesas arcaicas para mantê-la à distância.

            Posso agora voltar as minhas indagações iniciais e tentar respondê-las. Crianças hiperativas do tipo caracterial, com retardo emocional, possivelmente não foram contidas na sua angústia inicial pelos primeiros objetos; a pulsão de morte fica circulando junto com as fantasias de destruição (sadismo oral, anal ou uretral) e não há objetos “bons” para se projetar, aumentado o sentimento de angústia persecutória e a culpa por destruir o primeiro objeto amado (superego). Como no caso de Victor que passava de uma atuação a outra e o pai ao invés de contê-lo ficava anotando e contando quantas atividades ele realizava, como se fosse mero espectador e não o pai. Há um aumento do seu sadismo e ele agride como defesa, para não ser atacado.

            Vejo agora, que o melhor caminho para lidar com a impulsividade e agressividade destas crianças seria a contenção, acolhendo, tentando entendê-las e interpretar a sua angústia dentro do seu histórico transferencial.

            A minha angústia frente à pressão diante de tarefas acadêmicas, nada mais era que o meu sadismo uretral colocado contra aquilo que me tirava do princípio do prazer, que era a brincadeira, como no caso do menino da ópera de Ravel. Devo mencionar que depois de alguns anos de análise ela desapareceu.

            Concluindo este trabalho pude observar o quanto aprendi sobre a abordagem Kleiniana, principalmente na integração da angústia, superego e Édipo arcaico e, citando Silvia Bleichmar, que no seu livro “A Fundação do Inconsciente”, pág. 130, falando sobre a discussão entre Klein e Anna Freud dá o seguinte exemplo: “… A criança cuja melhor arma contra suas pulsões era seu medo ao pai, tinha um superego ao qual lhe faltava, certamente maturidade. O desenvolvimento do superego infantil depende de diversos fatores que não é necessário descrever aqui. Se por alguma razão este desenvolvimento não foi completamente acabado, e se as identificações não foram totalmente conseguidas, a angústia, da qual toda a constituição do superego extrai sua origem, predomina no funcionamento deste”.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

                                               REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

-         Klein, M. – Amor, Culpa e Reparação – (1921 – 1945) – Imago, Capítulo 11 – “Situações de Ansiedade Infantil Refletidas Em Uma Obra de Arte e No Impulso Criativo” (1929);

-         Klein, M. – Inveja e Gratidão – 1946 a 1963- Imago, segunda edição – Capítulo 2 – “Sobre a Teoria da Ansiedade e da Culpa” (1948);

-         Klein, M. – Amor, Culpa e Reparação – (1921 – 1945) – Imago, Capítulo 8-  “Tendências Criminosas em Crianças Normais” (1927);

-         Klein, M. – A psicanálise de Crianças – Imago, Capítulo 8 – “Estágios Iniciais do Conflito Edipiano e da Formação do superego”;

-         Steiner, J; Britton, R; Feldman, M; O’Shaughnessy, E. – O Complexo de Édipo Hoje, Implicações Clínicas – Artes médicas – Capítulo 4 – “O Complexo de Édipo Invisível”;

-         Bleichmar, S. – A Fundação do Inconsciente, Destinos de Pulsão, Destinos do Sujeito – Artes Médicas – Porto Alegre/1994.

-         Anotações feitas em sala de aula do seminário teórico de “Angústia e Superego Arcaicos em Melanie Klein”, segundo ano do curso Formação em Psicanálise, professora Maria Luiza Scrosoppi Persicano.

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